Dos anos 1980 até os dias de hoje, o rock em Fortaleza cresceu, se adaptou e se organizou aos espaços urbanos. A Poppin apresenta alguns personagens dessa história, que continua em constante evolução, sendo parte essencial da vida da cidade
Desde a junção do blues com o country nos Estados Unidos, nos anos 1940, ao colorido da banda Restart, muita coisa se modificou na história do rock ‘n’ roll. Em Fortaleza não poderia ser diferente. Com os primeiros passos dados já nos anos 1970, com bandas como O Peso, o rock só foi se firmar mesmo na terrinha a partir dos anos 1980, com a criação de novas bandas e a consolidação de um reduto para os amantes do gênero: a Galeria do Rock.

A Galeria Pedro Jorge, na rua Senador Pompeu, no Centro, é parada obrigatória para quem adora uma guitarra elétrica. Com vendas de camisetas e discos, além de serviços como aplicação de tatuagens e piercings, o lugar, conhecido como Galeria do Rock, foi conquistando seu espaço no comércio de produtos ligados ao rock.
A loja mais antiga da galeria é a Opus, no 2º andar do prédio, criada em 1984 por Tony Cochrane. O que começou quase como uma brincadeira entre amigos foi crescendo até virar um abrigo para os roqueiros da cidade. Como quase todo mundo que se interessa pelo gênero, a paixão de Tony pelo rock vem desde muito cedo. Quando perguntado sobre o começo do envolvimento com a música, solta um sonoro “vixe!”, como se fosse impossível determinar a data.
Mas da origem da loja ele lembra direitinho: “Eu tinha a banda Opus, no começo dos anos 1980, e além de tocar gostava de colecionar vinil. Resolvi então abrir uma sociedade com um amigo e criar uma loja para vender discos”, explica Tony, que antes de inaugurar a Opus vendia quadros e pôsteres de bandas em uma feirinha que acontecia na Praça Portugal.
Aproveitando o aluguel barato do espaço no Centro, resolveu criar a loja na galeria. “Como a galera que curtia rock era um grupo mais seleto, a gente conhecia todo mundo, então a loja era frequentada por essa turma”, diz Tony, que atribui a essa movimentação o motivo de a loja Opus ter se tornado um pilar para a cultura rocker da cidade. Atualmente, a galeria conta com diversas lojas que abrangem toda a cultura underground - não apenas rock, mas também hip hop e até mesmo reggae.
É o novo!
Embora o rock tenha estourado nos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960, em Fortaleza só foi começar mesmo lá pelos anos 1970 e 1980. Uma das pioneiras bandas de rock da cidade foi a Caco de Vidro, grupo formado com o intuito de tocar Led Zeppelin e Black Sabbath. Ensaio vai, ensaio vem, os rapazes acabaram desenvolveram um repertório autoral, que também apresentavam nos shows.

“A gente começou na época do rock dos anos 1980 no Brasil, então a gente acompanhava esse movimento”, conta Zezé Medeiros, vocalista da banda, que animava festivais de rock da cidade, “Nessa época, as três grandes bandas da cidade eram a Trem do Futuro, a Íris Sativa e a gente”, explica Zezé. O vocalista conta que eles fizeram muitos shows em festivais de colégio, “só tinha menino véi”, ri. Além de tocar em colégios, eles também se apresentavam em casas de show que existiam na cidade, como a Eclipse, que ficava na Abolição, a Duques e Barões, na esquina das ruas Duque de Caxias e Barão do Rio Branco, e a Ponte Para o Céu, na Ponte Metálica.
“Naquele tempo, tinha a turma do hard, que era a gente, e o pessoal do metal”, explica Zezé, que acha que a principal diferença das bandas de antigamente para as de hoje em dia é a profissionalização dos músicos. “Era muito difícil achar alguém bom. A gente se destacava na cidade porque a gente tocava um pouquinho melhor do que os outros, e isso fazia a diferença naquele tempo”, conta.
Em 1989, a banda começou a fazer shows com o repertório inteiramente composto de músicas dos Beatles. Apesar de fã do quarteto de Liverpool, Zezé não estava satisfeito com o caráter de banda cover que a Caco de Vidro estava formando, então em 1990, saiu da banda, que mudou de nome e oficializou o cover. “A Caco de Vidro se transformou na banda Yer Blues, que depois virou a Rubber Soul, e eu fui para a Íris Sativa, que acabou se tornando uma espécie de ‘Caco de Vidro’ nova”, diz Zezé. Após dez anos de hiato, a Caco de Vidro voltou, em 2000, e até hoje se apresenta em bares da cidade. Adotando de vez o repertório cover, eles agoram tocam músicas do Pink Floyd.
Rock alternativo
Lá pelo final dos anos 1980 e início dos anos 1990, enquanto as bandas de hard rock e heavy metal coexistiam na vida musical da cidade, havia uma turma um pouco mais jovem se articulando. Mais inspirados no rock alternativo da época, como Pavement, REM, Pixies e Oasis, esse pessoal, que frequentava a Galeria do Rock, foi se agregando e formando bandas.
“Ninguém se conhecia, mas como todo sábado a gente acabava se encontrando ali na Galeria, sempre em torno da Opus, acabamos formando uma turma, saindo juntos e indo para os shows”, conta Ana Cláudia, que em 1996 montou a banda Dress.

“A minha banda, na verdade, foi da segunda geração das bandas de rock alternativo da cidade. A primeira geração era o pessoal da Dago Red, Velouria, Heaven Up e Dead Poets, que era o pessoal do começo dos anos 1990”, explica Ana Cláudia. “O que a gente mais gostava era de ver bandas tocando ao vivo. A cena mais forte da cidade era a do metal, então antes do surgimento das bandas alternativas, quem gostava de rock acabava tendo que se submeter a essas opções” recorda.
Com a formação de novas bandas, foram surgindo outras opções de shows e entretenimento. Até que em 1995 aconteceu, na Casa de Cultura Alemã, da UFC, o I Microfonia, festival que consolidou essa geração. Com apresentação das bandas Dago Red, Velouria, Dead Poets, Banana Scrait e Heaven Up, o Microfonia é considerado um marco no underground. “Além dos shows das bandas, havia a venda de camisetas, CDs, e até fanzines, que eram feitos pelo pessoal dos Seres Urbanos (coletivo formado por quadrinistas locais). Então pode-se dizer que foi um evento multimídia para a época”, explica Ana Cláudia, que considera o Microfonia o pontapé inicial para a cena alternativa da cidade.
Na ressaca dessa grande movimentação do alternativo, surge em 2000 a banda Alcalina, derivada das Devotchkas, que pertencia à geração anos 1990. Da formação original, composta só por meninas, permaneceram Thaís Aragão, vocalista e guitarrista, e Fernanda Meireles, baixista. “Naquela época, quando a gente entrava na universidade, tinha direito a um presente. Então, em vez de pedir festa ou viagem, a gente pediu instrumentos”, diz Fernanda. Da criação da primeira banda até a formação da Alcalina foram quatro anos. A ideia de mudar de nome foi porque além da mudança da formação original, com a entrada de meninos na banda, houve também uma mudança na maneira da banda se comportar. “A gente queria se profissionalizar”, revela Fernanda.
Com isso, a Alcalina foi criando estratégias de marketing e autopromoção, como a comercialização de camisetas com o nome da banda, a criação de material de divulgação, como releases e ensaios fotográficos, além da decisão de só se apresentar mediante pagamento de cachê. “Aí aconteceu um bocado de coisa, porque se você começa a se levar a sério, as pessoas também te levam a sério”, explica Fernanda. Com essa profissionalização, a Alcalina arrecadou dinheiro suficiente para gravar o disco Memorabilia, lançado em 2002.

Organizando o rock
A partir de então, com as bandas começando a se apropriar dos espaços para shows na cidade, a cena foi se fortalecendo. E com o objeto de profissionalizar ainda mais o rock da cidade, além de fomentar o diálogo com o poder público, em 1998 foi criada a Associação Cultural Cearense do Rock, a ACR.
Para Amaudson Ximenes, presidente da associação, nessa época, apesar da movimentação, as bandas ainda eram dispersas, e uma organização que pretendesse unir os grupos era necessária. “Nestes últimos 12 anos foram muitas conquistas. A principal delas é o respeito que o estilo adquiriu junto ao poder público, a universidade, a sociedade de forma geral”, explica Amaudson, que também conta que espaços culturais, antes considerados fechados, aos poucos foram sendo ocupados pelos grupos de rock.
“Criamos o ForCaos, considerado um dos maiores festivais de rock underground do Brasil, fizemos um grupo de estudo, formado por pessoas ligadas ao mundo acadêmico que passaram a desenvolver estudos, monografias, dissertações e até teses, além do nosso curso de formação em audiovisual, onde já foram desenvolvidos dez documentários musicais e produzidos dez videoclipes de grupos locais”, completa Amaudson.
Anos 2000
Paralelo a essa organização, novos espaços iam sendo criados. Rafael de Lucena, conhecido como DJ Babuê, começou a participar da noite rock’n’roll da cidade em 2005, na extinta boate Noise 3D, através do projeto Cinderela - que proporcionava ao público a experiência de ser DJ por uma noite, mesmo sem nenhuma experiência prévia com discotecagem.
De 2005 até os dias de hoje, Babuê já foi responsável por festas de rock com temática gótica, virou produtor da banda Plastique Noir e ficou à frente da administração do Hey Ho Rock Bar, uma das mais emblemáticas casas de show, no período de dois anos que antecedeu seu fechamento.

Para Babuê, o que acontece com o rock de Fortaleza nos dias de hoje é um inchaço das bandas cover se apresentando na cidade. “A cena autoral da cidade está atualmente muito fraca. A programação dos shows de rock é basicamente de cover”, desabafa. Com isso, ele acredita que a cidade perde em criatividade.
Mas para Amaudson, a cidade ainda conta com uma boa movimentação. “A cena de Fortaleza possui muitas qualidades, boas bandas e espaços para shows. Além disso, temos um calendário de festivais, como o Festival do BNB do Rock Cordel (janeiro), ForCaos (julho), Feira da Música (agosto), Ceará in Rock (agosto), Rock Pró-Cultura (setembro) e o Ponto.Ce (novembro)”.
// Reportagem publicada na revista Poppin, realizada como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará. Em Fortaleza, 2010.











